O texto desta semana é do professor Rubens Portugal, pesquisador e consultor que durante sete anos esteve à frente do programa de capacitação de professores no Estado do Paraná.
“Você quer saber o que é fragmentação de conteúdos numa escola? Entre na cozinha à noite, no escuro. Tudo o que a família vai comer no dia seguinte está lá. Numa lata está o arroz cru. Noutra, o feijão, também cru. A carne está na geladeira. A cebola está inteira e não foi ainda escaldada. Batata crua com casca. O sal não saiu ainda do saleiro. O fogo está apagado.
Você ouve o zumbido do motor da geladeira em meio ao silêncio. O cheiro da cozinha limpa. Uma tristeza escondida no escuro. Tudo está ‘fragmentado’ e cru. Naquela hora não dá para comer.
De manhã, quando todos acordam e se levantam, a cozinheira começa a pensar no projeto do meio-dia: o almoço. Esse é um projeto pedagógico, gastronômico e nutricional. Interativo. A integração se dará dentro do prato: saboroso e nutritivo.
Na escola, o ensino por disciplinas é tudo aquilo que está ali, mas está cru. Os chamados conteúdos programáticos ou ingredientes estão todos lá. Separados e crus. O almoço é o jeito de ‘ressignificar’ no fogo. ‘Ressignificar’ é cozer ao fogo. O ingrediente cozido fica diferente porque se torna palatável. Saboroso.
Pensar o cardápio do almoço é pensar a combinação dos ingredientes de tal forma que dê gosto juntar um pouco de arroz, com um pouco de feijão... E aquele pedaço de bife. Como é bom mastigar misturando, juntando, construindo o sabor integrado.
Antes da degustação
O arroz cru não dá prazer de comer. Tem de ‘ressignificar’ no fogo. Para isso, primeiro cata para tirar as pedrinhas e as cascas que tinham ludibriado a peneira; depois, lava, escorre. Refoga com cebola em gordura bem quente. Põe sal. Chega a hora de despejar água quente. Aquela que vai cozinhá-lo.
O arroz cozido, quando a água seca, significa algo tão diferente do arroz cru! O bife teve de ‘ressignificar’ demais. De quando estava pastando lá fora até chegar no prato, bem passado, ao lado do arroz e das outras coisas, quanta ‘ressignificação’! Você nem pensa em morder o boi lá no pasto, não é mesmo ?
‘Tava bão o armoço?’, perguntou a cozinheira para a patroa. Avaliação. É o jeito natural da cozinheira avaliar o resultado do seu trabalho.
O ensino por disciplinas é absolutamente necessário. Tanto quanto o ato de ir ao supermercado comprar os ingredientes. Vem tudo ‘fragmentado’ e cru. O arroz vem na embalagem dele. Cada um vem ‘na sua’. Separado. A lata de óleo vem fechada. Você nem sonha em despejá-lo no arroz durante o trajeto do supermercado até a sua casa. Não pode misturar enquanto cru.
Se você não vai ao supermercado, não vai ter ingredientes para aprontar o almoço. Tem de buscar os ingredientes crus e separados. É o ensino por disciplinas que numa fase é essencial. Pode ser cansativo, maçante, ter de ir buscar as coisas cruas, separadas, fragmentadas, mas tem de ser feito. Tanto quanto o aluno tem de aprender coisas que, no início, não parecem ter sentido. O que fazer? Pode ser maçante, mas tem de acontecer. Há escolas que estão com a despensa bem suprida. Tudo bem embalado e cru. Na hora de fazer uma refeição, essas instituições cozinham e servem bons almoços sob a forma de projetos. Fazem, portanto, as duas coisas: a fase maçante do ensino por disciplinas e a fase saborosa do ensino por projetos.
Existem, infelizmente, escolas que só se preocupam em trazer conteúdos do ‘supermercado’ das disciplinas. Fica tudo cru e separado. Tem coisa na despensa, mas não tem almoço.
O ensino por disciplinas tem de ser alternado com o ensino por projetos, exatamente como a patroa e a cozinheira sabem fazer. Tem hora para ir ao mercado. Tem hora para descascar, lavar, catar, cortar. Tem hora para cozinhar (‘ressignificar’). Tem hora para botar na mesa e para comer. Tem hora para agradecer e lembrar que estava muito gostoso. Tem hora para digerir (que é outra ‘ressignificação’).
Tem escola que só traz as coisas. Não põe na mesa o almoço gostoso. São escolas que não acordaram para a significação. Com ensino sem sentido, fragmentado por disciplinas. Isso é forçar a criança a comer alimentos crus: alguns até dá para engolir, outros, impossível. E se são empurrados, a indigestão é certa.
O ensino por projetos é justamente o que faz a cozinheira. O ensino por disciplinas é o ato de a patroa ir ao supermercado, comprar e trazer as coisas cruas e separadas.
É evidente que os dois ensinos são igualmente importantes.
Um projeto é um momento em que os alunos fazem, assumem a condução das buscas, pesquisas e entrevistas. É quando a gente pára de dar aulas e passa a cozinhar, juntar. O fogo é a pergunta. Pergunta quente que cozinha e ‘ressignifica’.
“A mais preciosa arte de um educador é saber perguntar, tão importante quanto o fogo no preparo de uma refeição.”
Este texto foi destaque em umas das aulas da Professora Ana Maria Dalsasso, muito interessante à comparação que o autor faz entre uma cozinha e a escola. Que antes de cozinhar as coisas estão cada uma no seu lugar, crua esperando a cozinheira para preparar os alimentos, assim é a escola, tudo fica fragmentado, precisando de um novo projeto para preparar “os alimentos” (disciplinas). Esperamos que todos gostem. Beijos das meninas do blog.
Você ouve o zumbido do motor da geladeira em meio ao silêncio. O cheiro da cozinha limpa. Uma tristeza escondida no escuro. Tudo está ‘fragmentado’ e cru. Naquela hora não dá para comer.
De manhã, quando todos acordam e se levantam, a cozinheira começa a pensar no projeto do meio-dia: o almoço. Esse é um projeto pedagógico, gastronômico e nutricional. Interativo. A integração se dará dentro do prato: saboroso e nutritivo.
Na escola, o ensino por disciplinas é tudo aquilo que está ali, mas está cru. Os chamados conteúdos programáticos ou ingredientes estão todos lá. Separados e crus. O almoço é o jeito de ‘ressignificar’ no fogo. ‘Ressignificar’ é cozer ao fogo. O ingrediente cozido fica diferente porque se torna palatável. Saboroso.
Pensar o cardápio do almoço é pensar a combinação dos ingredientes de tal forma que dê gosto juntar um pouco de arroz, com um pouco de feijão... E aquele pedaço de bife. Como é bom mastigar misturando, juntando, construindo o sabor integrado.
Antes da degustação
O arroz cru não dá prazer de comer. Tem de ‘ressignificar’ no fogo. Para isso, primeiro cata para tirar as pedrinhas e as cascas que tinham ludibriado a peneira; depois, lava, escorre. Refoga com cebola em gordura bem quente. Põe sal. Chega a hora de despejar água quente. Aquela que vai cozinhá-lo.
O arroz cozido, quando a água seca, significa algo tão diferente do arroz cru! O bife teve de ‘ressignificar’ demais. De quando estava pastando lá fora até chegar no prato, bem passado, ao lado do arroz e das outras coisas, quanta ‘ressignificação’! Você nem pensa em morder o boi lá no pasto, não é mesmo ?
‘Tava bão o armoço?’, perguntou a cozinheira para a patroa. Avaliação. É o jeito natural da cozinheira avaliar o resultado do seu trabalho.
O ensino por disciplinas é absolutamente necessário. Tanto quanto o ato de ir ao supermercado comprar os ingredientes. Vem tudo ‘fragmentado’ e cru. O arroz vem na embalagem dele. Cada um vem ‘na sua’. Separado. A lata de óleo vem fechada. Você nem sonha em despejá-lo no arroz durante o trajeto do supermercado até a sua casa. Não pode misturar enquanto cru.
Se você não vai ao supermercado, não vai ter ingredientes para aprontar o almoço. Tem de buscar os ingredientes crus e separados. É o ensino por disciplinas que numa fase é essencial. Pode ser cansativo, maçante, ter de ir buscar as coisas cruas, separadas, fragmentadas, mas tem de ser feito. Tanto quanto o aluno tem de aprender coisas que, no início, não parecem ter sentido. O que fazer? Pode ser maçante, mas tem de acontecer. Há escolas que estão com a despensa bem suprida. Tudo bem embalado e cru. Na hora de fazer uma refeição, essas instituições cozinham e servem bons almoços sob a forma de projetos. Fazem, portanto, as duas coisas: a fase maçante do ensino por disciplinas e a fase saborosa do ensino por projetos.
Existem, infelizmente, escolas que só se preocupam em trazer conteúdos do ‘supermercado’ das disciplinas. Fica tudo cru e separado. Tem coisa na despensa, mas não tem almoço.
O ensino por disciplinas tem de ser alternado com o ensino por projetos, exatamente como a patroa e a cozinheira sabem fazer. Tem hora para ir ao mercado. Tem hora para descascar, lavar, catar, cortar. Tem hora para cozinhar (‘ressignificar’). Tem hora para botar na mesa e para comer. Tem hora para agradecer e lembrar que estava muito gostoso. Tem hora para digerir (que é outra ‘ressignificação’).
Tem escola que só traz as coisas. Não põe na mesa o almoço gostoso. São escolas que não acordaram para a significação. Com ensino sem sentido, fragmentado por disciplinas. Isso é forçar a criança a comer alimentos crus: alguns até dá para engolir, outros, impossível. E se são empurrados, a indigestão é certa.
O ensino por projetos é justamente o que faz a cozinheira. O ensino por disciplinas é o ato de a patroa ir ao supermercado, comprar e trazer as coisas cruas e separadas.
É evidente que os dois ensinos são igualmente importantes.
Um projeto é um momento em que os alunos fazem, assumem a condução das buscas, pesquisas e entrevistas. É quando a gente pára de dar aulas e passa a cozinhar, juntar. O fogo é a pergunta. Pergunta quente que cozinha e ‘ressignifica’.
“A mais preciosa arte de um educador é saber perguntar, tão importante quanto o fogo no preparo de uma refeição.”
Este texto foi destaque em umas das aulas da Professora Ana Maria Dalsasso, muito interessante à comparação que o autor faz entre uma cozinha e a escola. Que antes de cozinhar as coisas estão cada uma no seu lugar, crua esperando a cozinheira para preparar os alimentos, assim é a escola, tudo fica fragmentado, precisando de um novo projeto para preparar “os alimentos” (disciplinas). Esperamos que todos gostem. Beijos das meninas do blog.

OOI MENINAS GENIAIS.. HEHEH
ResponderExcluirÉ, MUITO BOM MESMO ESSE TEXTO
UM BEIJO
Tiramos grandes lições de pequenos gestos, basta observar....
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