sexta-feira, 19 de março de 2010

A COZINHEIRA QUE FAZIA UM PROJETO TODOS OS DIAS.

O texto desta semana é do professor Rubens Portugal, pesquisador e consultor que durante sete anos esteve à frente do programa de capacitação de professores no Estado do Paraná.

“Você quer saber o que é fragmentação de conteúdos numa escola? Entre na cozinha à noite, no escuro. Tudo o que a família vai comer no dia seguinte está lá. Numa lata está o arroz cru. Noutra, o feijão, também cru. A carne está na geladeira. A cebola está inteira e não foi ainda escaldada. Batata crua com casca. O sal não saiu ainda do saleiro. O fogo está apagado.
Você ouve o zumbido do motor da geladeira em meio ao silêncio. O cheiro da cozinha limpa. Uma tristeza escondida no escuro. Tudo está ‘fragmentado’ e cru. Naquela hora não dá para comer.
De manhã, quando todos acordam e se levantam, a cozinheira começa a pensar no projeto do meio-dia: o almoço. Esse é um projeto pedagógico, gastronômico e nutricional. Interativo. A integração se dará dentro do prato: saboroso e nutritivo.
Na escola, o ensino por disciplinas é tudo aquilo que está ali, mas está cru. Os chamados conteúdos programáticos ou ingredientes estão todos lá. Separados e crus. O almoço é o jeito de ‘ressignificar’ no fogo. ‘Ressignificar’ é cozer ao fogo. O ingrediente cozido fica diferente porque se torna palatável. Saboroso.
Pensar o cardápio do almoço é pensar a combinação dos ingredientes de tal forma que dê gosto juntar um pouco de arroz, com um pouco de feijão... E aquele pedaço de bife. Como é bom mastigar misturando, juntando, construindo o sabor integrado.
Antes da degustação
O arroz cru não dá prazer de comer. Tem de ‘ressignificar’ no fogo. Para isso, primeiro cata para tirar as pedrinhas e as cascas que tinham ludibriado a peneira; depois, lava, escorre. Refoga com cebola em gordura bem quente. Põe sal. Chega a hora de despejar água quente. Aquela que vai cozinhá-lo.
O arroz cozido, quando a água seca, significa algo tão diferente do arroz cru! O bife teve de ‘ressignificar’ demais. De quando estava pastando lá fora até chegar no prato, bem passado, ao lado do arroz e das outras coisas, quanta ‘ressignificação’! Você nem pensa em morder o boi lá no pasto, não é mesmo ?
‘Tava bão o armoço?’, perguntou a cozinheira para a patroa. Avaliação. É o jeito natural da cozinheira avaliar o resultado do seu trabalho.
O ensino por disciplinas é absolutamente necessário. Tanto quanto o ato de ir ao supermercado comprar os ingredientes. Vem tudo ‘fragmentado’ e cru. O arroz vem na embalagem dele. Cada um vem ‘na sua’. Separado. A lata de óleo vem fechada. Você nem sonha em despejá-lo no arroz durante o trajeto do supermercado até a sua casa. Não pode misturar enquanto cru.

Se você não vai ao supermercado, não vai ter ingredientes para aprontar o almoço. Tem de buscar os ingredientes crus e separados. É o ensino por disciplinas que numa fase é essencial. Pode ser cansativo, maçante, ter de ir buscar as coisas cruas, separadas, fragmentadas, mas tem de ser feito. Tanto quanto o aluno tem de aprender coisas que, no início, não parecem ter sentido. O que fazer? Pode ser maçante, mas tem de acontecer. Há escolas que estão com a despensa bem suprida. Tudo bem embalado e cru. Na hora de fazer uma refeição, essas instituições cozinham e servem bons almoços sob a forma de projetos. Fazem, portanto, as duas coisas: a fase maçante do ensino por disciplinas e a fase saborosa do ensino por projetos.
Existem, infelizmente, escolas que só se preocupam em trazer conteúdos do ‘supermercado’ das disciplinas. Fica tudo cru e separado. Tem coisa na despensa, mas não tem almoço.
O ensino por disciplinas tem de ser alternado com o ensino por projetos, exatamente como a patroa e a cozinheira sabem fazer. Tem hora para ir ao mercado. Tem hora para descascar, lavar, catar, cortar. Tem hora para cozinhar (‘ressignificar’). Tem hora para botar na mesa e para comer. Tem hora para agradecer e lembrar que estava muito gostoso. Tem hora para digerir (que é outra ‘ressignificação’).
Tem escola que só traz as coisas. Não põe na mesa o almoço gostoso. São escolas que não acordaram para a significação. Com ensino sem sentido, fragmentado por disciplinas. Isso é forçar a criança a comer alimentos crus: alguns até dá para engolir, outros, impossível. E se são empurrados, a indigestão é certa.
O ensino por projetos é justamente o que faz a cozinheira. O ensino por disciplinas é o ato de a patroa ir ao supermercado, comprar e trazer as coisas cruas e separadas.
É evidente que os dois ensinos são igualmente importantes.
Um projeto é um momento em que os alunos fazem, assumem a condução das buscas, pesquisas e entrevistas. É quando a gente pára de dar aulas e passa a cozinhar, juntar. O fogo é a pergunta. Pergunta quente que cozinha e ‘ressignifica’.
“A mais preciosa arte de um educador é saber perguntar, tão importante quanto o fogo no preparo de uma refeição.”

Este texto foi destaque em umas das aulas da Professora Ana Maria Dalsasso, muito interessante à comparação que o autor faz entre uma cozinha e a escola. Que antes de cozinhar as coisas estão cada uma no seu lugar, crua esperando a cozinheira para preparar os alimentos, assim é a escola, tudo fica fragmentado, precisando de um novo projeto para preparar “os alimentos” (disciplinas). Esperamos que todos gostem. Beijos das meninas do blog.

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